Ao vencedor, as batatas!
  manual secreto de amor

chega agora, não tenho o post do dia, aquele elaborado pela grande correria, sucessão de fatos, as visões do dia

não há nada que tenha que ser dito, pensado, discutido, questionado, medido, considerado, implicado

há um sentido, dentro do coração, que tirou todas as coisas que diriam, eliminou reflexões

um sacrifício,



 Escrito por Borba, o cão às 21h52
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  quando se trata do som inaudível do verdadeiro amor, que os desavisados não percebem e não podem dizer

Às vezes penso que não importa quanto tempo eu tenha que esperar, esperarei. De repente, como agora, o coração dispara, rosto contorcido de uma dor desconhecida...

(Ele liga diante de um recado, uma desculpa minha, o concurso para fotógrafos amadores que saiu na revista; eu estava digitando, do rosto quase saltava a lágrima. Tenho que aguardar que ligue de outro orelhão. Estou diferente, não sinto exatamente mais o de antes, quando comecei o post, ele ligou. Estou com medo de estar estragando tudo; se for isso, mais uma vez, todas as vezes, chorarei. Mas ele ligou e eu disse a sua mãe que ele ligasse se quisesse, que tem o concurso e eu as fotos em meu poder; ligou porque quis. E se for pra ser, daqui a pouco eu choro. Tenho que ficar digitando até o telefone tocar? Se eu parar vou ficar sem ação. Meu desejo era escrever um post doloroso, meu coração deslocado... Aí, trim trim, levei um susto, ai ai, era ele, só podia... Sempre demora meia hora pra encontrar outro orelhão... É que não está conseguindo ligar a cobrar, precisa ver um que tenha telefone legível pra eu telefonar... Agora.)

Não foi o meu recado que o fez ligar (ufa!). Está na praia desde ontem, às duas da tarde. Ligou pra saber das notícias. Duas horas de telefone. Não vamos nos agredir; não temos por quê.

A partir de hoje, comprei cinco litros de vinho, só vivo de porre. Ele não sabe, mas o tempo que pára pra pensar é o que me deterioro. Não consigo mais estar sã sem entorpecimento. Começo a dose hoje. Disse-lhe: enquanto pode pensar, lembra que eu aqui não tenho nenhum refúgio, nada. O tempo em que estiver pensando não vai lhe servir de nada. É muito rápido, só sentir. Qual é o tempo em que se decidirá por isso? À medida que o tempo passa, mais longe está de eu ter qualquer esperança. Não acredito que me ame. Ele virá me dizer se não ou sim.

Amar, estive dizendo... Eu não fui idiota por amá-lo, quando todos sabem quem ele é; e eu determinei para mim: o melhor! Estiveram me dizendo que amar é entregar-se, e daí?, passa, se não te aceitam... Eu digo: a entrega de verdade torna dono quem recebeu; amar de verdade assim é e minha falta de hipocrisia impede de agir diferente. Não posso ter vergonha de dizer: mal-usado, mas se já caiu nas mãos do desimportado... Eu sou. Entregada. Escolhi bem, não estava determinada a ser de ninguém; não se tratou de um corpo entregue; as pessoas se doem de entregarem seu corpo, aí superam, foi doloroso, mas foi o corpo - sempre confundem consigo, como se estivessem se entregando -, tem que levar a vida... Uma alma entregue fica por conta; se deixar, morre assim. Dependo dele pra estar onde estiver; devolva-me a mim, eu por mim, não posso me mexer. Aceitem ou não, mentes. Eu sou um sentimento visceral, instintivo, irracional. Eu sou o que livros tem vergonha de escrever e congressos não querem ler; a pior pros envergonhados de amor; a pior pros envergonhados de sentir; sou proibida pra exitantes.

"Então amor não é saudável"... quem pediu pra ser saudável? quem está disposto a amar de verdade? ser amado é a receita; ninguém pediu pra amar... Todo mundo é solitário; porque praticamente ninguém ama. O contingente é procura-se amante, "amado procura amante". Eu fiz isso, passei a vergonha de tomar a frente e permitir sentir sem pudores, entreguei minha liberdade. Mas não foi a um qualquer de certa esquina. Entreguei a quem estivesse disposto a anular minha escravidão, com a sua própria; ora, eu anularia a sua também...

A única liberdade é o amor recíproco.



 Escrito por Borba, o cão às 20h14
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Está certo. Agora a prisioneira sou eu. Não fui capaz de sair ontem. Prometi que ia fazer muitas coisas hoje. Minha cabeça congestionada não descansou aínda. Um alto som me fez estar trancada desde cedo, obrigada a ligar música alta para tentar esconder a cacofonia da rua... Fere menos que lá fora; mas eu preferia o silêncio ontem. E hoje.

Não pude dormir; fui deitar tarde demais; rolei por horas e um som maligno, agressivo demais, desde cedo, não sei que horas, veio atacar; tentei continuar mas foi impossível. Vim só ligar o som, mas não consigo voltar, embora muita dor de cabeça e frio. Tremo toda. Não posso abrir janelas, ver a luz, tentar me animar.

Disco um telefone proibido. E a pessoa proibida não está; em lugar nenhum. Eu só não sei o que fazer. Eu queria perguntar se imprimo uns textos pra concurso, inventar alguma coisa pra poder me aliviar, ouvir uma voz, a voz.

Ele não é mau. Me telefona de volta; a sessão do blog expira enquanto choro, não porque quero, não é assim. Eu quero me livrar disso; sinceramente. Eu não tenho nada, uma volta com o Marfan ou a Lívia, um quintal de barro ou parentes com quem me importo e se importam comigo; aqui era pra eu ser mais livre; não estou conseguindo. Mas lá também não me liberta.

Se eu não conseguir a próxima casa? se ele não vier na quinta pra me ajudar? se meu coração tiver que pausar aqui?

me sinto tão perdida e qualquer palavra é um erro



 Escrito por Borba, o cão às 10h46
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  minha conclusão - é muito equivocada?

De qualquer forma, eu te amo. E mesmo sem ter telefonado, aguardo o seu retorno ao Rio.

Não vou te ligar, que não é justo com você. Sei que fui muito ruim, estava péssima. Mas amanhã há nova carta no correio; cartas no correio são fantasmas e só podem fazer bem, porque é carta de amor. Espero que leia, me responda.

Não estou dizendo que vai voltar, mas estarei aguardando. Se for na quinta, então, vou me sentir muito feliz. E, se voltar, tentaremos o máximo da felicidade, numa casa maior e mais espaço para nós dois. Se estivermos lá, também será possível que eu consiga fazer minhas coisas particulares. Meu egoísmo consiste em não aceitar suas particularidades se não consigo ter as minhas. Eu realmente quero mudar. E quero que enxergue que amar é forte e bom para nós dois. Espero que a resposta que não me deu seja que me ama. E eu te aguardo, se você sentir isso por mim.

Estou tão triste, mas com esperanças. Nós somos bons, temos que entender as necessidades do outro e poder resolver, sem nos atacar. Entendo as suas, espero que entenda as minhas:

eu quero poder viver a seu lado e te fazer feliz



 Escrito por Borba, o cão às 02h43
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  Confie em mim confie em mim eu te amo e quero que sejamos felizes me perdoa e confia em mim deixe disso e faça de amanhã um outro dia, resolva tudo, agora e bem

Não respondo por atos. Quando tudo enegrece, eu me afundo num abismo de loucura.

Não era pra ter sido assim, novamente.

Por favor, dê um sorriso para mim. Por favor, diga, se apesar de tudo, vale a pena me amar. Que nós somos felizes, quando não estamos tristes. Que nós sentimos uma coisa imensamente boa e que adoramos estar próximos, quando não desconfiamos, não nos agredimos.

Eu disse que você não fazia mais parte da minha vida. Não consigo acreditar. Você me ama me ama me ama? então perdoa perdoa perdoa.

Ah, me responde, é capaz de não se sentir mal, se eu pedir? de relevar tudo tudo? de acreditar na gente?

Ronnie, eu não estou bem, esses dias estão me confundindo, temo ficar sozinha, procurar casa, enlouquecer, bater em Carmem, enforcá-la, me envenenar, perder você, não morrer de repente sem perceber, não morrer quando você se for, me prostituir, ofender os amigos, ser estuprada, cozinhar meu braço e comer com orégano, matar alguém, quebrar coisas, amanhecer e o mundo continuar, ter que comer e tomar banho, não ser feliz... Olha, eu não era assim era? Não fique com medo de mim, quando preciso que você me proteja. Me protege, me protege, me salva, me impede de ser tão ruim, só faça essas coisas se for capaz, seja capaz, seja rico, publique um livro, escreva, não se abale, sorria, alegre-se, tome sorvete comigo e com a Italiana, faça carinhos em minha cabeça, me beije com vontade, perdoe meus excessos, more comigo numa casa bonita, tire fotos comigo, ganhe uma câmera, leia um livro e tenha vontade de falar sobre ele comigo, critique o que escrevo, seja honesto, ouça uma música incrível ao meu lado, fique estupefacto, sinta saudades de Carmem, se preocupe com ela, more comigo, me leve em seu coração, sinta saudades de mim quando estiver longe, sinta-se feliz perto de seus parentes, fale de mim para Karina, diga que a amo e quero que me perdoe, peça desculpas ao Daniel, diga que gosto muito dele, dê um pedaço de coisa gostosa a meg, a ring e a roke, ao gaturno, às galinhas, pegue em minha mão com vontade, traga as pessoas para nos visitar, vamos comprar alcatra na quarta feira, acorde e olhe pra mim com satisfação, deixe-me um bilhete bonito para dar uma caminhada, volte e me chame para outra caminhada, conte o que viu, faça-me rir, me pegue desprevinida com um abraço espontâneo, ouça meus conselhos, acredite em mim, viajemos pelo mundo, escreva histórias pensando em mim, peça minha opinião, de um pulo de alegria, me dê um grande beijo na bochecha, me aperte, morda a coceira de minhas costas, marque com as pessoas para nos visitarem, vamos ao cinema, vamos andar pela cidade à noite, passar a madrugada sentados numa rua boa, cochilar um sobre o outro. Seja meu esposo e não discutamos mais.

Me repreenda, amando.

Discorde sem brigar, me convença ou se convença; seja forte. Se entrega a mim que te deixo livre. Se arrisque.



 Escrito por Borba, o cão às 01h34
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  E nunca foi tão sério:

não brinque com minha dor



 Escrito por Borba, o cão às 12h08
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  lembrei

o que são mudanças na vida, que sempre vão haver? o almoço diferente, a criança de outro, a beleza de outro, os empregos que se cansam, os cães que morrem e os novos que chegam, a flor que nasce no meio do jardim, a escrita que perde ou ganha um ponto, a bola que chega em cada rua diferente, o grau dos óculos que mudam, os pratos que quebram, a idade que passa, a criança de outro que começa a falar, a mulher diferente que flerta a cada dia, a cadeira que fica velha, o livro que ainda não leu, a moeda que muda, a velhice que chega?

pessoas nascem crescem morrem todo dia

seu medo é conservador, fere o caminho de quem o chama, o ama

acorda

o medo incapacita.

(um repertório velho que não surpreende; o auge de qualquer um é o momento de suas maiores descobertas; quando acha que basta, começa a decair)



 Escrito por Borba, o cão às 12h02
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  Eu queria comentários a respeito do que sinto, comentários sinceros que se concentrassem em minhas palavras

Não há felicidade, procure onde procurar. Você é isso, sem segredos: um saco de erros; eu também. Não há segredo.

Há muitos anos que estamos sozinhos o suficiente para nos conhecer. Não espere mais. Uma pessoa é aquilo que é, naquele momento. Não sejamos místicos; não há poços misteriosos.

Se alguém vivesse toda vida ao lado de outra pessoa, ele seria aquilo que é ao lado dessa pessoa. Não podemos ser vários; só uma coisa de cada vez, o sentimento verdadeiro de um instante.

Ninguém se perde por estar ao lado de outro; se acha isso, é que nunca existiu.

Eu perdi o que ia dizer. Tenho um coração partido. Mas nunca aconteceu, não é remendado, pela primeira vez estraçalhou.

Até quando vou agüentar? Até hoje apenas.

Eu não disse "quero martírios", mas quem quer sofrer sofre. Não inventa que isso é motivo de dor, se não é. Dói em mim.

Adeus.



 Escrito por Borba, o cão às 11h49
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Olheiras profundas. Não dormi cedo, mas acordei. Ainda tentei dormir, mas o coração é muito apertado, incomoda demais.

Hoje, não quero comprometê-lo. A sensação é de tudo acabado.

Fiz de tudo para ser amada, mas a fraqueza não permitiu.



 Escrito por Borba, o cão às 11h41
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Não é natural que alguém saia, sem avisar ou deixar um bilhete sequer, quando convive com outro. Você ficou preocupado naquele dia que eu saí...

Ronnie, preciso que apareça e fale comigo. não me ignore! Onde está? Não ligou quando disse que ia fazer! Isso é muito injusto! Preciso encontrá-lo. Não quero que sofra com nada, não vou me sentir em paz enquanto não falar com você. Seremos dois malditos. E eu enlouquecerei. Não queira que tudo vá por água abaixo! eu te amo eu te amo eu te amo. E está doendo muito eu não saber o que está sentindo de verdade. Inclusive se você mandou que as pessoas dissessem que não está. Não me evite! Fale comigo.



 Escrito por Borba, o cão às 17h59
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  Querendo te dizer coisas boas e que me perdoe

Li seu comentário, esperei que aparecesse no msn, liguei pra casa do John, disseram que não está.

Liguei pra sua casa, acho que todo mundo sabe que eu sou terrível e que você está cansado de me ouvir... Você não estava. Todos estão com medo de mim? Você pediu pra não te chamarem? Estou com medo.

Ronnie, tudo é tão terrível, pra mim, um medo, ser proibida de estar com você, imporem que eu não posso sentir o que sinto porque o que eu sinto é mau.

Aparece, por favor, e me perdoa. Tenho a te dizer... Fui ver o negócio da casa.. Estou vendo. Onde você está? De onde comentou? Não me ligou, como prometido; não está onde disse que ia estar.

Não me deixe nesse vão, sem saber o que sentir... Não se esconda de mim! diga pelo menos o que eu faço!



 Escrito por Borba, o cão às 17h45
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  Rápido!

Acabo de comer o macarrão, que ficou horrível. Vou passar lá no Quarto pra falar com a Italiana, que em vez de comentar, me indicou o meu blog, clicando no lugar errado...

Tenho que sair, pra ver o negócio da casa. E já são três e dezoito!



 Escrito por Borba, o cão às 14h18
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  Por favor, não me trate como uma idiota apenas porque não me entende; entenda, porque é a pessoa escolhida pra isso.

Escrevo mais para que o Ronnie leia; todos sabem disso. Eu queria que ele soubesse a merda que estou sentindo a cada dia, mal contada e imbecil, mas que lesse. Não sei se isso importa, mas queria que importasse. Como já passo tantas vergonhas, passo mas essa de implorar atenção a algo que não importa.

Acontece que prefiro muito mais ler o Entre sem bater que o pequeno e o grande, espero muito por seus posts lá, porque quero saber como se sente. As histórias ficam pra depois, porque a melhor coisa é o Ronnie. Sim, estou a cada dia mais ridícula; talvez a receita seja ninguém saber que existo. Sou um monstrego de sentimentos tortos. Quero fazer parte de sua vida, não é racional, não posso me conter, quero ser muito querida por você. Chego a implorar isso, já que fica perto de mim. Já perguntei, pra que eu sirvo?, se não significo assim. Lá ia saber que eu precisava que me amasse?... A verdade é que acreditei que isso fosse desde o começo, que esse sentimento estava intrínseco entre nós. Mas me sinto sozinha demais, como se estivesse entre quem não me entende. Como disse algum dia, estamos num estágio em que é imprecíndível sermos compreendidos; e dói tanto a sua burrice, quando me distorce, quando não entende que precisa fazer escolhas com relação a mim; me amar ou me deixar, não achar que sou uma dondoca de Dalton Trevisan, uma capa faladora, mas que tudo não passa de uivo de dor.

É triste quando seu comportamento, resultante de toda verdade do que sente, seja apontado e ridicularizado pelos outros, seja criticado, questionado e "aconselhado". Não preciso de conselhos porque não "penso" na gente, mas "sinto" por nós. E tudo isso não passa de verdadeiro sentimento e necessidade, que domina tudo que sou. Aos que não entendem isso, aos acostumados a pagar por uma carícia como mais uma sensação apenas, sem importância, a eles uma merda bem fedida! Aqui estou dizendo de tudo que me importa.

É muito frio ter o nome numa placa, no mundo; esse tipo de amor não existe e é o que a maioria quer. Eu, enquanto desejar importância pra alguém - e viver é ser assim, querendo que alguém se importe - vou querer ser importante só pra você. E o meu único leitor é você, o que eu quero. A tudo, qualquer besteira que escrever, qualquer rabisco, quero que se manifeste, falando uma verdade. É muito fácil passar pelos lugares escritos e pensar, bem dentro de si, "isso não me diz nada, é uma porcaria mal-escrita, apenas". Pois escrevo com sentimentos que anseiam respostas em sentimentos. E preciso que me diga, "indiferença", se for só isso que sentir; que diga qualquer coisa, uma verdade. E quando eu descobrir que meus sentimentos são solitários demais para viver com você, constatarei esta minha penitência e serei uma ermitã. Pareço não te dizer nada e a partir daí você se fazer de desentendido. Agindo como aqueles falsos amigos que dizem "volte sempre" e "adorei teu texto", num ato de relações públicas. Não posso acusá-lo de mentir assim, porque não faz. Mas posso dizer que comigo não está se importando. Não vou ficar servindo chá para suas conversas literárias. Não sou uma simples dona de casa; talvez já esteja morta, mas não sou uma graça. Não quero incentivos e escrever como "terapia". Quero saber se estou estagnada e que se afaste de mim, se for isso; não quero que seja meu professor, mas que me dê esperanças reais, se eu as tiver. Quero um universo comigo ou nada. Que pudéssemos ser nossas bases. "Não me obrigue a sentir o que não sinto" é muito vago - ou podemos ser amantes de corpo e alma do que o outro é ou não nos limitemos a aturarmo-nos com os gracejos e o pouco que o outro é. Eu te amo por tudo que é, pela beleza de coisas que te fazem viver, pela capacidade de perceber a naturalidade para compor lindas coisas, pela realidade como pode reconhecer outras, pela forma pura como pode se posicionar a pensar; te amo por inteiro. Não me ame parcialmente que outras coisas feias em mim irão afastá-lo; ame todas as minhas capacidades, se eu as tiver. Diga se tenho.

Você não precisa que eu o leia, mas sim uma dezena de blogueiros, a maioria que não sabe escrever patavinas, os que visita em blogs; precisa que entrem lá e digam o que acham; não te dói porque você escreve bem; vê lá se ia se expôr desse jeito, se não escrevesse... até aí você precisa muito das pessoas, de todo esse mundo. Minha opinião não tem importância, porque sou uma imbecil inapta mesmo, escrevo porque ensinaram o abecedário na escola. Que crítica eu possa fazer a você?, não diz nada, não é suficiente, até porque não li muitas coisas por minha conta, tudo foi passado por você, sou "sua seguidora", né, e não duvido que no fundo do seu íntimo desacredite de minha capacidade pra "julgar" algo feito por você. Só pode estar satisfeito escrevendo para blogs, no computador, onde todas as pessoas vão ler e dizer. Mas, cuidado, a maioria também só sabe elogiar; a maioria também é essa turma de gente chata, que só quer ter nome em placas e diplomas e papéis que digam que são bons. Porque hoje em dia não contam com a sua própria escrita para isso, mas com títulos e críticas oportunistas, com conceitos e currículums vitaes que vão se formando ao longo da vida.

Sabe que preciso muito de uma virtude, mas do que qualquer conceito decorado de se viver acima de tudo. Nunca acreditei em me relacionar com ninguém, porque nunca fui capaz de admirar qualquer pessoa e também de ser admirada. Mas as pessoas, por uma natureza imbecil de cópula, não ligam pra essa coisa de admiração, mas sim pra necessidades físicas. Só quando o conheci, e quando o tempo passou, pude ceder a idéia de que poderíamos nos admirar. Inicialmente, tive medo de você perder o gás da vida e eu não poder mais admirá-lo; dessa forma, sentiria nojo de mim. Mas você não perde as capacidades, estou muito abaixo. Quem não é capaz de fazer admirar mais sou eu. Preciso agora que corra de mim; não consigo me afastar de você mas sinto tanto nojo de mim, por mim... Só posso culpá-lo por estar perto de mim, sem que eu te ofereça nada. E vou sempre ser infeliz assim. Que eu te ofereça tudo que precisar em qualquer pessoa é o único jeito de continuarmos. Não é uma exigência de limitá-lo, mas de expandir-me. Não te peço o sacrifício de se contentar com o que sou, mas de exigir que eu seja mais. É o que deve ter mais atenção e o que suplico todos os dia sem que me compreenda.

E se não puder agir assim comigo, se não existir forças que eu possa explorar em mim, se eu não te bastar por ser tudo...

Não vou conseguir viver. Não haverá sentido para nós, nem verdadeiro amor.



 Escrito por Borba, o cão às 12h50
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  tem gente que nem sabe que eu gosto dela

E quanto mais os minutos passam, eu me desespero. E há um motivo para continuar. Uma guerra inacabada com o tempo e suas obrigações, com a exigência de desligar, o sentimento de conspiração, de solidão no seu pior sentido, desconfiança. Crescente e incontrolável, desesperado. O que eu era não me representa mais; imploro que me ame, já me entreguei a esse sentimento quando achei que era ele, quem me amava, me entendia.

Ele diz que preciso de médico, porque alguma coisa é diferente em mim; não ajo como os outros, mas tenho medo, não são conselhos e sensação de absurdo dos outros que vai me corrigir. Quando já cheguei ali é porque cheguei, não é um engano, sou ridícula desse modo. Imploro quando desejo saber porque está ali, o que eu sou, por favor, o que mais preciso saber agora é o que significo, pra que eu sirvo? é uma pergunta que precisa de resposta agora, se não souber não sei o que acontece... Sou tão ridícula, o que eu sou? Você não precisa ouvir essas coisas, não precisa agüentar tudo isso...

Eu não sei desligar o telefone. Vocifero de medo palavras que nunca seriam ditas por mim. Não me maltrate mais, tudo isso é medo; não precisa me explicar. Só me diz uma coisa, só essa... Você tem que me suportar, não posso com essa ameaça. Isso tudo é medo, medo. Medo.

Estou cansada, com medo, sozinha. Não é fácil, não é. Quantas voltas maiores e inúteis dei pelos cantos e ruas, quando tive medo de perguntar demais, insistir demais; estou com medo. Em todo lugar todos são tão perigosos e não me querem por perto. Tenho medo.

Hoje pensei: tem gente que nem sabe que eu gosto dela. Sentei no primeiro banco do bondinho e o Bigode estava lá. Ele sabe que eu existo, sabe que a gente existe; pensa alguma coisa da gente; com certeza, que eu sou muito séria e, talvez, antipática. Ele não sabe que o Ronnie escreve histórias e que a gente inventa coisas boas sobre ele. Não sabe. Alguém acha que eu esbarrei nela de propósito. E outro pensa que estou bêbada. Alguém acha que eu sou má. Que cheguei atrasada ou faltei de propósito. Que quero aparecer? acho que alguém também pensa isso. Alguém acha que estou de frescura. E se alguém pensar que eu não amo ninguém.

Eu me desliguei de todo mundo exatamente por sentir diretamente ligada a qualquer um de que gosto. Ele disse que eu não ligo pra ninguém; eu ligo tanto, que enlouqueci. Se eu te amo, não vou te abandonar, nunca. Se eu te amo, eu morro por você. Sou assim, por isso preciso de você, para me proteger. O mundo me quer para tirar sangue espremendo como suco. É o verdadeiro amor, você, em quem posso confiar - pra me proteger de mexer e me esmagar no mundo.

"Não brigue com ele, que é tão bom", todo mundo acha que não presto e que sentir assim é ridículo. Todos estão calejados, envolvidos demais em seus conceitos e proteções. Eu não me protegerei de você, eu sangro. Não gosto de artistas, mas de vida - e por ela, vou às últimas conseqüências, morte, de viver.

Existe meu mundo distante, onde convido para morar. Meu choro lamenta que prefira aí, do lado de todo o resto, da humanidade mascarada, farsante. Abaixo livros e histórias que não sejam escritas em sangue. Cansada de coquetéis e discursos baratos, lançamentos de livros e saraus. Eu sou daqui, onde posso adormecer com o rosto escondido no teu peito. Cedi. Não posso ficar desprotegida, quando o cérebro começa a arder achando mal das frases feitas e desejos falsos. Toda vez nunca dormi, agora quero descansar perto de você.

Estou cansada, tenho que deitar. Eu não sei dizer, agora virei mais bicho que nunca, não tenho linguagem, a cada dia mais distante de tudo isso. Mas eu precisava te fazer sentir a minha dor - aliás, é todo motivo de minha desgraça não conseguir fazer - , fazer saber que abomino essa linguagem comum de mexer no corpo alheio. Existe um terreno particular; decida-se pela sua casa.

Ninguém nunca vai saber o que tem dentro do poste pelo qual passou e não notou que tinha uma encomenda para si. Não vai saber que gosto dela; e que faço tudo por ela. Me proteja dela. Você a deixa estrebuchar, por isso não me entende. Eu acho muito importante a vida. Tenho mais compromissos que você, mais importantes. É mais importante que saudade e promessas a saúde e vida dela, a engraçada maluca pra quem olha umas duas vezes e te lambe os pés; mas eu lambo as patas dela, se for pra sarar senão morre. E faço tudo por ela; é so precisar.

Ninguém nunca vai saber. E se você não der tudo de si pela vida, vou desprezar com razão suas mentiras. Todas suas crenças, a partir daí, farão oca a trajetória e não adianta nada dizer para eu viver... já está morto.

Acho que só eu pedi de verdade: viva! Quando muitas vezes ouvi essas sílabas de você, significando: prossiga assim, morta que seja, prossiga...

Isso é um sentimento, não a vontade de aborrecimento.

De repente sentir é uma loucura, motivo pra solidão. Queria as mãos.



 Escrito por Borba, o cão às 23h11
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  qualquer arte é uma merda

às importantes coisas chamo vida.

está na hora de desmascararmos essa farsa

cansei de mentiras!

                                               Abaixo arte!                                        



 Escrito por Borba, o cão às 01h07
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  segunda-feira

Muito quente hoje. O óleo do corpo fritando em volta dos poros, com o ar quente que encurrala o líquido viscoso que tenta vazar a pele.

Eu, ardendo diante do computador. Ligado enquanto eu dormia, para ficar mais prático, caso o Ronnie acessasse a internet, antes do serviço. Ligou e me acordou, foi pro serviço, eu fingi que tinha algo pra fazer.

Tanta preguiça, pus Carmem lá em cima, sem água ou ração "já volto". Uma guerra na cozinha para partir ao meio a pizza congelada. Conversa fiada ao computador, para matar o tempo. "Sorte não ter que ir ao correio hoje; ainda bem que puseram a correspondência, que pensei extraviada, por debaixo da porta". Levo ração e água, debaixo de sol quente, às três e quinze. Carmem não me vê subindo. Está louca a coitada... Sem gente, cão ou gato, água ou osso, para implicar, late agora pro ar; morde o ar. Invoca-se com uma suposta pulga que a faz coçar... Roda em torno de si e do ar abafado, envolvente... "Carmem, pobrezinha...", ergue as orelhas e olha em volta até fixar arregalados olhos em mim. Corre em direção ao portão, dá seus uivos de contralto, como dolorosos. "Calma, calma", rodo a chave, carrego balde e ração; ponho à sombra. Voa para comida, "crack, crack" "Tchau, Carminha, até mais tarde". O sol é feroz, minha pele gruda. Entro no chuveiro frio. Quase às quatro, estou descendo a escada.

De camiseta, o vento rodopia as coisas, sacolas e folhas. Vento felliniano no morro de Santa Teresa. Os ciscos afiados miram os olhos dos caminhantes. Subo esforçada, desço sacolejante.

Rua Paula Matos. Podia ser minha nova casa... Um prédio antigo, de três andares, deserto. Portão aberto, apenas um gato amarelo, no quintal. Sem ação, nem saber o que fazer, bato palma em frente à primeira janela, aberta, mas ninguém atende. Nova tentativa, o gato se espanta, pula por entre as grades da janela e entra no quarto, some lá pra dentro. Inúmeras tentativas, surge um homem no terceiro andar e diz o nome da mulher que deve me atender: Dona Rosa. Apareceu um casal jovem, meio hippie, que procurava apartamento, na rua, e alguém indicou dona Rosa, pra mostrá-los o mesmo que eu fui ver. Desistiram; não sei se foi pelo preço, que eu disse a eles, ou cansaço de esperar. Como era inútil ficar naquele prédio fatasmas, ventania e jeito de Fellini, me despedi sorridente da ocasião e desci escadas para a rua Riachuelo.

Decidi passar em um prédio, onde se via um conjugado dito grande pegando a chave com o porteiro. Mas definitivamente grande é o conjugado que Vera me alugou, não encontro maior...

Passei nas Americanas, comprei quatro cds virgens, procurei promoção de refrigerante e preços bons de biscoitos amanteigados, mas nada. Entrei na Ramalho Ortigão, mas ainda faltava uns dezoito minutos, segui pela sete de setembro e me meti a comprar um lanche... Não posso ficar sozinha, que penso ter direito a gastar dinheiro com qualquer porcaria. Esperei pelo Mauro, meu professor que ficou de me levar uns cds, até as seis e vinte. Sabia que não ia, me dirigi pra estação de bondinho.

Agora, converso com Ronnie pelo messenger. Escrever perdeu a graça, por enquanto. A menos que seja para contar a ele, as coisas. Amanhã, vou ao cinema. amanhã, tenho um dia longo e, talvez, de fotos.

Então fica para amanhã, o resto.



 Escrito por Borba, o cão às 18h54
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  Para dizer boa noite

As coceiras não páram! são do sabonete protex! tenho certeza... Pioraram, o banho se tornou mais terrível em todos os estágios de utilizar qualquer produto de higiene, depois que vi no site da Suipa sobre as experiências cruéis que fazem com animaizinhos, em laboratório. A coceira hoje é mais intensa. Penso que o excesso de toxicidade, que prejudica os bichinhos, está fazendo mal a mim. Mas estou com coceira de verdade; não é psicológica. É perguntar ao Ronnie, que ele sabe.

Que me habitue a esta solidão. A verdade é que tenho medo e muita preguiça disso. Mas é um estágio verdadeiro e conhecido, muito bom, até. O medo é de estar no mundo. Quando o relógio despertar, tenho que ter tudo, antes da fome chegar, estar em lugares em que não quero estar. Não quero telefonar pra gente desconhecida, receber preços indesejáveis, ouvir conversa fiada. Solidão é liberdade plena. Não sou livre, então que o Ronnie me proteja; preciso esconder a cabeça do mundo.

Estou com muito sono agora. Mas quero ter um espaço em que me sinta livre, já que estou só, livre suficiente pra falar da solidão. Qualquer besteira, mas, pronunciar a sensação.

Quero ter o dia todo, poder ficar direto, não ter fome nem compromissos. Mas todos os dias tem as horas marcadas, também tem o inverno quente, que não suporto de calor trancada.

Ah, deixa pra lá...

Amanhã. 



 Escrito por Borba, o cão às 02h06
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  Fantasmas para semana que se seguirá

Acaba de sair. Já fechou a porta, por mim.

Uma semana, a gente se vê novamente. Hoje, erguidos da cama por inquietação secreta, tomamos banho, lasanha pré-pronta no forno. A passos largos, o caminho do Catete. Assumindo outros ares e postura, diante da tela grande: Woody Allen. Paguei, pela primeira vez no ano, meia entrada com meu novo direito, o de estudante. Uma emoção de quem vai poder ir dobrado ao cinema.

Pela manhã, os classificados anunciam novas esperanças que me desanimam; ele não estará comigo, tudo pareceu vão. Mas agora tem luz e novo ânimo.

Há dias que não penso neste blog. A verdade é que nunca penso neles. Mas há dias que ele é o passatempo que menos importa. Não tenho motivos para passar tempo.

Limpei o banheiro ontem, a cozinha, ele lavou a roupa. Tudo para que eu não desanime e desabe.

Um tremendo medo quando ouço a porta fechar. Ele está indo. A semana inteira pra tentar. O que puder; há o concurso de contos, aulas, casas para ver, cds para gravar, exercícios de aula, leituras. Estou com medo, meus dedos nunca tiveram intenção de registrar coisas bonitas. Tudo é o ato de passar tempo enquanto ele se afasta, vai pra lá.

Aqui é muito chato, sozinha, cercada de vozes indesejáveis. Se fosse pura e simplesmente sozinha... Mas ele foi, deixando vozes que sabem meu nome, mas que nunca convidei para um chá.

Agora estou tremendo; fico tentando entender se lá embaixo falam de mim. Pareço antipática. Na verdade, sou tímida. Outro dia, tive medo de me oferecer para carregar a pasta de um garoto que ia de carona, no bondinho. Enquanto me decidia, um senhor, ao meu lado, se ofereceu. De repente, pareci uma vilã egoísta demais - só não consegui abrir a boca e pronunciar o que pensava. Seo Paixão deve achar que tenho medo dele, o moço que vinha ver o terraço inventou pra dona da casa que não deixei que subisse. Tenho medo de aproveitarem do meu nome, na solidão, para mexericarem com olhares afiados. Tenho medo porque não perguntei pela saúde de Seo Paixão, quando esfaqueado.

Por favor, o que mais quero, quando estou sozinha, é ser aquela velhinha solitária que se arrasta sobre chinelas, para alimentar seu bichinho de estimação e molhar as plantas. Que mora num velho apartamento, com vista para a cidade movimentada, noturna, lá embaixo. Ocasionalmente vai à venda e ninguém sabe que ela é um dos ocupantes de cadeira em cinema, em vários dias da semana. É de uma felicidade emocionante, no recôndito quente, entre panos velhos e mais fina e gasta pele, a sensação de poder, pelo menos, ser expectadora das coisas da vida. Não deseja estrelato, tudo pode perturbá-la. Se puder simplesmente olhar a sua volta, sentir-se oculta entre tanta gente movimentada. Esse calor preenche sua, minha, vida solitária, dá vontade de pequenos e vários rabiscos sem importância, que sustentam e animam o cérebro. Dá vontade de andar pelas ruas, de não ter pressa, qualquer compromisso. E esse meu sentimento é uma fantasia que vai planando sem perceber o sereno riso no rosto. De repente, tenho que voltar a mim: telefone, contratos, endereço, curso, amigos, cachorra e um amor. Pelas melhores coisas, fiz o sacríficio de não estar só.

Preciso de constante proteção do que confio contra outras coisas que querem intervir em minha solidão.

Que eu possa atuar como a velhinha solitária, durante a semana... Não. Há casas, curso e relações.

Mas que eu seja cética quanto aos fantasmas que vão povoar a semana. Tudo não se passa de uma história chata, que daqui a pouco acaba.



 Escrito por Borba, o cão às 17h06
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  Seu rosto sério me dá medo

Agora eu vou dormir. Já nos fiz muito tristes por hoje.

Às vezes penso que vou estar sempre infeliz, por esse maldito incômodo de uma solidão onde não deveria estar. Meu membro cortado dói como existisse, entende?

Você existe? Acredito em você. Está aqui, dorme no meu coração.

Não, não se vá. Não queira outra cama. É aqui que você sempre vai ficar. Não corra pra uma outra casa ou cidade, deserto, onde meu coração não possa estar. Ele é aqui, comigo.

Não se vá. Não me mutile. Ele está aqui, não pode estar lá.



 Escrito por Borba, o cão às 00h43
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  O Escritor

Posso vê-lo pensando. Acho que ninguém pôde ainda perceber numa pessoa o mais genuíno ato do pensamento. Muita gente aí, que se diz escritor, numa solidãozinha de rabiscar papel - na verdade, apertar botões de computador - só conseguiu pôr-se a tramar. Ninguém na simplicidade da invenção divertida. Do prazer descompromissado.

Outra pessoa não deve ter notado quando um verdadeiro escritor estava lá, olhando pra dentro de si. Porque eles têm mania de se esconder - são muito tímidos. Eu, intrometida, me enfio atrás da cortina e começo a olhar. Ele, tão perto, sem outras opções e nenhum grande ritual, sem medo de seu melhor refúgio, está lá, nu, pensando. Posso vê-lo.

Um privilégio. Um segredo.



 Escrito por Borba, o cão às 14h42
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  Áurea vai dormir pra ver se acorda cedo e ver se dá sorte de conquistar a casa boa, na bela quarta feira que se seguirá.

 Escrito por Borba, o cão às 00h01
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  coceira

Morro de coceira. Muitas coceiras nas costas, nos pés. quase todo dia.

Ronnie esteve muito triste. Espero que esteja melhor agora. temos planos para que tudo se ajuste, breve. e que ele corrija suas pendências.

A verdade é que não sei muito o que dizer. Estou cansada e exaltada demais.

Ah... até mais.



 Escrito por Borba, o cão às 00h32
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Ele tem que chegar logo porque me ligou do oásis ao meio-dia. Priscila acabou de ligar, preocupada com ele. Saiu de lá triste e nervoso.

Estou aqui escrevendo pro tempo passar e ser inevitável que chegue. Já são três e vinte cinco. Qual o motivo da demora? Onde ele deve estar. Só posso ficar tranqüila quando ouvir a porta estalar.

Não pense que estou de jogo. Por favor, não pense que não preciso tanto de você. Estou com medo. Eu disse a ela que você, pode deixar, vai ligar. por favor, esteja bem.

O que passa agora em sua cabeça? Está vindo me dizer o quê? Espero que também acredite que tudo dará certo.

Ninguém me tenha como vilã, tudo isso já é muito doloroso.

Eu só preciso de você. Você é tão bom que vai entender isso.

Estou esperando. Chegue logo. O tempo no relógio não pára mas você não chega. O que quer que eu faça. Preciso saber alguma coisa. É o bondinho? ele está atrasado? O que há.

Por favor, chegue agora.



 Escrito por Borba, o cão às 14h30
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  Ronnie,

gostaria de saber se eu, como vilão nessa história toda, cujas palavras ninguém acredita e pareço dizer "quero o Ronnie aqui pra mim, ele não é livre pra mais nada, quero anulá-lo", gostaria de saber se eu devo pensar agora se só somos eu e Carmem?

Porque agora parece que nem você acredita em mim. Parece ser o primeiro a querer se livrar de mim.

Não sei o que acha sobre isso: que nós éramos parte um do outro e devíamos primeiro nos ajudar. Que estávamos livres de todo o resto. Porque livres um do outro, como você deseja estar, não somos mesmo. No mesmo quarto, até dormir é em função do outro. Mais prisioneiro que eu acredito ainda que você seja. A ponto de me abandonar, quando a coisa aperta; prisioneiro do próprio ego. Não seja irônico porque se pensar bem nisso, não é bom mesmo. Foi uma promessa honrada que fez lá nos primórdios não me deixar na mão, promessa feita a uma querida amiga; era o que dizia.

Tenho medo de todo esse tempo não ter significado nada, de todos os abraços e lágrimas terem sido uma farsa. É disso que tenho medo.

Não sei mais o que é esse sentimento pra você, que a mim tornou-se essencial. E você é essencial na minha vida. De repente, descubro que não sou; por declarações que você mesmo fez.

E isso faz sentir da forma como te disse, que você achou muito brutal. Mas a verdade tinha que ser dita. Qual é o seu papel em minha vida? E o meu, na sua?

Carmem precisa de mim. Eu cuido dela.

Não sei se você acha que já precisou de mim alguma vez. Careço sinceramente de resposta longa e sem defensivas. Que considerem nossos melhores momentos juntos. E os piores.

Se não for o seu abraço, outro será falso. Isso é precisar de você, para abraçar. Existem muitas outras pessoas que suprem certas necessidades como até agora eu venho servido?

E fica sozinho para todo sempre, retorno a dizer que responda sem defensivas, sem precisar de ninguém, como gosta de afirmar? Quando a verdade é que saiu de perto de mim para o alcance de muito mais pessoas. Se for assim, não vá praí. Vá para lá, bem longe de mim e deles. Mas não é.

É tão banal, tão besta, tão qualquer coisa, isso que eu digo, não é?: Preciso de você, neste momento. Não acredite nisso, como não deve acreditar em: Eu te amo!; você deve saber que nunca foi fácil pra mim dizer frase que parece tão tola. Seria bom saber que não é fácil.

Mas eu supliquei.

[quero resposta]



 Escrito por Borba, o cão às 20h57
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  Uma história de ficção me fez muito infeliz.

 Escrito por Borba, o cão às 15h20
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  Passeios e rio que não podem ser vistos de longe

Não consigo parar de persegui-lo. Ligo pra dizer só um pouquinho. Aqui está muito escuro e eu não sei se existe alguém que me quer por perto. Certas coisas me fazem pensar que estou completamente sozinha, que ele foi duro demais da última vez e realmente não quer saber de como me sinto. E no momento não quero perturbá-lo, mas ele é a única pessoa que eu tenho.

Sinto muita dor. O gosto que mais senti esses dias foram os salgados de minhas lágrimas.

Ele está de saída. Vão passear pelas ruas, conversar muitas coisas. Fico com ciúmes de cada um. O que eu mais desejava é que me quisessem por perto. Não há lugar pra mim. Os dois concordam que isso não é uma dor tremenda. Eu desligo o telefone para deixá-los em paz. Penso na beira do rio, na menininha, nas coisas importantes que amigos conversam.

Acho que esqueceram de mim. Estou com tanta dor. Sinto meu fedor arder com a tristeza; a dor é tão forte que emito sons. Aperto a rediscagem automática antes que seja tarde demais. Peço pra chamá-lo antes que saiam.

"Estejam aqui! Venham me buscar", estou sentindo como preciso de vocês... Mas conversa entre dois amigos é tão particular que nem pareço fazer parte. Nunca soube conversar e dizer uma coisa bonita. O mais podre dos seres.

Sonhei que errei o caminho de volta pra casa, na cidade grande, enquanto ele me esperava. Estava com medo de não chegar, mas não sabia se ele me esperava.

Estou tão chata que quero sumir. Não sou a amiga deles mais. Queria ser o assunto e saber que não se confortam em saber que estou tão triste. Mas há o rio, a menininha, os risos e os sorvetes. Os passos calmos que eu nunca consegui dar; eles agora caminham naquele passo que não entendo. Eles se entendem e estou de fora. Reviro-me pelos lados, me bato contra tudo. Aqui está escuro e hoje é um sábado de passeios pintados em Monet. Eu estou mais negra que tudo e seus sorrisos são brandos. Não virão me buscar. E ninguém sabe a minha dor.

Fui esquecida em algum momento. De repente, a maravilha ficou plana e estou presa entre morros. Eu não quis assim, mas ele fez questão de contar a história desse jeito.

Peço que não esqueça das coisas bonitas. Estou com inveja de poderem ter companhia.



 Escrito por Borba, o cão às 14h57
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  :

e quando voltar quero ver o que vai ser daquela cidade sem você; porque não vai querer ficar sem mim.

 Escrito por Borba, o cão às 20h28
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  Covardia

Acabamos passando pela 2ª vez do instante terrível. Ele agora diz que desiste de mim. Precisar dele é muito assustador.

Conforme-se com sua fraqueza e eu com a minha.

Amanhã ele tem que estar aqui. Porque preciso dele: é uma dívida. E ele disse que vem.

Pois eu quero declarar o que ouvi: quero ficar sozinho; não gosto mais do Rio; não estou preso a cidade alguma; quero ficar longe de todo mundo; não quero saber mais de ninguém; não quero mais escrever; vem morar aqui comigo; estou te oferecendo isso porque é uma dívida que tenho por você; não menti quando disse que te amo; não menti quando disse que não queria ir e te deixar aqui sozinha; vou aí e volto pra Campos pra sempre; posso escrever em qualquer lugar; não sou livre perto de você; nunca serei livre; você não me permite andar sozinho; mesmo que diga que posso ir, perco a vontade por você se sentir sozinha; agora cansei de tudo e vou deixar tudo; não mudo de idéia e vou ficar em Campos; gosto dos meus parentes e quero ficar as semanas com ele; quero ficar completamente sozinho; não posso dizer que não te amo; vou embora pra sempre; vou te ajudar a encontrar a casa e vou embora; não vamos insistir nos assuntos; não jogue o que eu disse na minha cara; estou nervoso; não quero mais procurar casa; não quero levar uma vida sem condições no Rio; sua fraqueza me assusta; eu sou fraco.

Peço a quem conhece esse que eu amo e a quem me refiro que dê sua opinião. Pelo pouco que conhecem dele, se tudo que ele diz significa o quê.

É que eu preciso de sua ajuda e só devia bastar entender e não me deixar só.



 Escrito por Borba, o cão às 20h26
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  sexta

Ontem, perdi a aula na Escola da Música. Ronnie apareceu on line, da casa de seu primo John. Tinha acabado de limpar a varanda e ia me vestir. Mas perdi a vontade e a hora.

Ao acordar, ontem mesmo, senti perdoar o Ronnie pela culpa que não tinha. Acordar limpa tudo. Durante o dia, fiz de tudo para esconder o vazio. Não sei como aconteceu, mas a culpa devia ser dos míseros cinco biscoitos que fizeram parte do meu estômago durante todo o dia. E da falta de banho.

Eu preciso do Ronnie aqui. Ele diz que não dá, não pode. Mas não é saudade nem nada disso. Tem diferença: saudade e precisar. As pessoas têm mania de meter em suas vidas simples namoradinhos, corpos com finalidade sexual, casos, casamentos, sei lá. Buscam se envolver assim, de encostar, com qualquer um. Marido é qualquer um, amante é qualquer um. A vida no mundo é assim. O Ronnie é parte de mim e não posso ficar faltando um pedaço quando minha vida está na pior fase.

Ronnie, entende o que digo? Ao acordar hoje, depois daquele longo fim de tarde, estendendo-se por toda noite, hoje eu te perdoei. Tentei comer e foi difícil. Minha fraqueza era tal como se tivesse tomado muitos remédios. Pura fraqueza de fome. Tremendo, enjoada, sem conseguir levantar. Pensei num quentinho copo de leite ninho... Tentei me alimentar. Bebi água pra iniciar com o biscoito. Que é muito seco e eu podia passar mal, mas tinha que segurar. Não deu muito pra ficar comendo aquilo, que não cai bem em estômago deficiente. Encontrei aquele ovo que sobrou, objeto de competição, n'outro dia - e que ninguém comeu. Cozinhei pra me dar saúde - eles servem na doação de sangue. Foi muito difícil tudo isso, pois estava tonta. Queimei um pouco a mão. Fiz leite. Não ficou bom. Comi ovo com sal. Bebi bastante água. Fiquei por aí.

No momento, estou faminta. Não consigo descer pra comprar pão e coisas no presunic. Lá fora está realmente me assustando. Vozes visitam seo Paixão, fraca para escadas, medo de encontrar pessoas. Talvez, se o pão servisse ainda, de anteontem, comia com patê e ficava mais forte. Há muito penso em preparar um macarrão, mas não sei qual a medida que devo fazer e se vou querer comer.

Parece que não é só seo Paixão doente no prédio. Estou me sentindo mal, como se não pudesse sair daqui, de pijama. Seo Paixão tranca a porta e gera gritos na escada. Isso já lhe rendeu facadas no bucho, mas não perde a mania. Agora são as enfermeiras que berram pra abrir.

Pensei em ligar pro Darlon e dizer pra vir pra cá, que eu vou pra Campos. Mas se eu fizer isso, vou estar abandonando a escola de música. faltei já uma aula - terei que repor; se fizer de novo... Tudo por água abaixo! Só posso fazer isso se for voltar pra Campos mesmo, mas não quero. Pensei em ver no que tudo dá, sozinha. Mas é só quando acordo que penso que posso passar por essa sozinha... E no decorrer do dia, percebo que com muito custo me ergo para tomar qualquer atitude por mim.

Não se trata da ausência sua, Ronnie. Mas dela agora. Se continuar aí em Campos vai ter que resolver absolutamente todos os problemas por aqui sozinho. Eu não vou existir pra nada. Não vou me mexer até que tudo, casa com móveis, esteja nos seus devidos lugares.

Não seria injusto? Mas é assim, sozinha, que me sinto.

Hoje não abri janelas, porta, qualquer coisa. Carmem nem sei como é. Coloquei mais ração, na calada da noite, pra me salvar durante o dia.

Recebi seu e-mail, li seu comentário. O problema todo é que você não entendeu ainda, por mais que diga que sim: estou sozinha!



 Escrito por Borba, o cão às 15h52
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  terça, quarta, quinta

Sento na cama às uma e quarenta e um da tarde, logo assim que abro os olhos, tão tarde, para não sentir falta do Ronnie.

Agora são os afazeres que vão até de noite. Neste curto tempo dou a remessa da tarde de ração a Carmem, preparo o patê que há muito ficou por conta do Ronnie - se não fizer agora o frango vai estragar. Como os três pães que restaram de ontem. subo com Carmem e limpo o terraço. Dou banho na menina, senão ela fica doente de sujeira. Limpo um pouco a varanda, pra Carmem continuar cheirosa. Lavo a louça, tento tomar banho e vou pra escola de música. Esqueço da vida por uns instantes e fico tentando imaginar os pedacinhos de sons que comporão uma coisa bonita; sinto um pouco de medo da minha lerdeza e surdez, de não conseguir captar a tempo os sons...

Volto pra casa, sem ligar pro Ronnie. Será que vai estar na casa do John, quando eu chegar, e nos falaremos pela internet? E eu vou sentir raiva e saudade dele; a noite está chegando e tempo de me sentir mais sozinha que nunca... A minha "hora do lobo" esquisita... Ele tinha que estar aqui...

Por falar em Bergman, acabo de receber um e-mail do cinesanta, dizendo que vai passar na igreja A Fonte da Donzela.

Estou para redigir um e-mail ao meu professor de panorama musical - aquele que pedi pra ser meu fiador por e-mail e, na verdade, ele leu, mas não chegou a ver o meu outro, pedindo desculpas pelo ato - , um e-mail post aula, porque na sala é difícil de dar as sugestões necessárias. Na aula dele é necessário certas interrupções de minha parte sim; não sou aluna pentelha de querer dar palpite. Mas ele leva material novo e diferente pra lá e precisamos ter uma idéia de como conseguir isso, pra desenvolver o que ele quer que desenvolvamos. Levou lá um md com gravações de músicas do Vietnã do Norte. Preciso saber se ele pode passar isso pra cd e emprestar pra gente copiar, essas coisas... Mas é uma hora semanal de aula, apenas, sessenta e nove pessoas numa turma, professor disperso em suas várias vertentes de conhecimento contemporâneo... E fico sem saber se vou conseguir agir conforme, nessa escola... Quero saber o que serei, com relação a música, daqui a um ano: estou metida em turma de pessoas, ainda em outra cidade. Meu cérebro fica complicado, o coração nervoso...

Levantei o dedo e fiz uma pergunta ao Professor Mauro - com relação a movimento musical atualmente, na cidade do Rio, que se relacione aos assuntos da aula. Ele perguntou meu nome, eu pensei "agora que são elas...", disse "Áurea", com um sorrisinho malígno, ele perguntou com seu jeito estabanado, na turma "Quem é que mandou e-mail aqui na turma?", respondi com o mesmo sorrisinho "Fui eu mesma, professor", ele, na força de seu disfarce tropeção "Ah, li seu e-mail sim... Nem respondi, ia até perguntar... Fiquei esquecido, estou sem computador em casa, uso cybercafé... Por isso eu digo, gente, me mandem fax, que sábado a partir das duas eu sento e respondo tudo... depois a gente conversa, Áurea, eu ia falar com você mesmo... É bom você me perguntar sobre isso...", mudando de assunto, para minha pergunta primeira. Mas não consegue, na verdade, começa a falar de sua ralação na música, desde sempre, que conquistou com seu suor... E que isso "o torna meio egoísta com suas coisas", no fim do discurso... Meus pensamentos " ah, professor, você vem me atrapalhar com isso agora?! antes não dissesse nada, que eu não sou burra. Antes lesse meu e-mail de desculpas, seu atrasado! Ou me respondesse por escrito, imediatamente após ler o que eu escrevi...", já me deixou com olhos dispersos, tentando entender o que se falava na sala, sobre o que, ninguém ali tinha nada a ver com aquilo e a aula só tem uma hora... Fico puta porque não obtenho a resposta para minha pergunta. Ao entrar em outros detalhes daquela aula, ergo o dedo - na verdade, tento falar mesmo, que não tenho paciência pra dedo levantando - e quero perguntar outras coisas, como se é possível que ele passe o álbum em md para cd e deixe a gente gravar, mas ele tira a minha pergunta pra dar vez a outras, talvez que tivessem levantado o dedo a mais tempo e eu não tenha percebido... O problema é que fica muito tempo naquelas colocações que podem ser curtas e acabar logo, fica papeando em torno delas, caindo a elogios de umas coisas e crítica a outras, coisas que não me importam nem deveriam importar muito ao resto da turma; perguntas sobre preferências ou sugestão do professor.... Indigno-me com minha falta de vez, que busca pequenas e objetivas respostas, apenas. Acho realmente que são úteis a todos, as coisas que quero saber, já que temos aula e são esses os assuntos do professor. Já entendi, professor; acho que antes mesmo do senhor... perdoa, de você. Estou pra mandar um e-mail perguntando o que quero saber e sugerindo já algum material que possa levar e me servir durante o resto da semana em que não o vemos. E dizer pra não ter tanto medo de mim, que se fosse um conhecido de longa data, ia mesmo era achar graça dessas minhas propostas desesperadas e irracionais, que lanço a todos, de vez em quando. Já esmolei um real em um real, na rua, quando morei sozinha em Campos, há alguns anos.

Não contei ao Ronnie tudo sobre o professor. Mas ele vai saber por aqui... fiquei com preguiça de dizer os detalhes e, com vergonha... De dizer cara a cara que tive que defrontar meu mico, na terça.

Lá fora está nublado e, às vezes, as árvores fazem tanto barulho com o vento que a gente pensa que está chovendo. Carmem, com toda razão, já mijou na varanda. Eu estou tonta de fome. O relógio do computador marca duas e trinta e três da tarde. Tenho duas horas pra realizar meus planos, na casa. Já que ao levantar vim direto pro computador.

Deixe eu publicar este post, antes que desmaie de fraqueza...



 Escrito por Borba, o cão às 13h02
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  Ronnie,

estou sozinha, não tomo banho hoje porque tá frio. nem amanhã.

as coisas vão apodrecer na geladeira.

eu quero que se fodam todos os cheios de conceitos que não sabem o que é sentir. isso não tem medida e nem direção.

morro sim. agora, por você. imploro o que tiver que implorar, desisto de qualquer coisa...

quando se trata da única coisa que existe de fato - nem leis, nem idéias, nem histórias bonitas inventadas, nem a beleza de banho tomado, nem qualquer filosofia. o respaldo do bebê solitário. a rede em que se joga, para olhar a falta de sentido da vida, ou fantasiar a existência de alguns.

volta, graveto. que é você que me segura viva.



 Escrito por Borba, o cão às 00h09
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  Agora não sei o que faço...

Passei o fim da tarde fingindo que vivia. Liguei o computador, mexi e remexi os blogs, mas visito os de sempre, não publicam nada. Acabo logo com minha farsa.

Ligo pra Italiana, depois de me inquietar pensando sua presença na internet. Mas foi antes, enquanto a loja e as dívidas me prendiam. A burocracia. Depois disso, como é vazio voltar sozinha pra casa. E ter que abrir a porta, Carmem não fala nada; só rebola. Ele está dentro do ônibus, a cada segundo mais distante. Tenho que inventar a hora de comer, estar decidida a fazê-lo. Invento ainda umas coisas jurídicas pra me entreter na internet, mas isso enchatece fácil...

Todos estão muito distantes. A Lívia é quase inacessível, exatamente quem me entretém na ausência.

A noite chegou. A meia-noite. Ele não acessou internet nem ligou, como disse rapidamente, no pequeno telefonema que fez. No instante, queria ter certeza de que não tenho ninguém. Sumir e me conformar. Ou então ter pra sempre.

Não há hora do banho. Ou de dormir. Tenho que decidir a hora do patê, se vou fazer. Nenhum compromisso.

Estou sozinha. É preciso que saiba. Nada que eu ame. Tive medo da faca, na hora de lavar. Acordo e não pronunciarei nada. O dia levado assim.

A quem gosta de julgamentos: eu dependo! é nocivo! não é livre!

Abaixo a liberdade, sobre aqueles que amam!

Sentimentos parecem farsa na mão dos outros, para quem tudo tem medida. A vida não tem instante de pausa: no dia que acontecer, não vai voltar. Acaba.

O que sinto vive; não pause com o leve descanso proposto: não mate: amanhã é o prazo pra socorrer a asfixia, o máximo, se der tempo. Não mate: esqueça tudo e volte. Vou abandonar tudo. Carmem vai morrer. Eu vou aí! Ponho fogo nas coisas...

Não espere atitude de mim. Se me ama, volta agora! Todas as horas me importam. Não posso acreditar em você! Não precisa voltar, se for daqui a duas semanas, uma ou três dias. Quando esse tempo tiver passado vou acreditar pra sempre que não tenho ninguém. Vou começar a me conformar.

Você sabe o que são os sentimentos para mim. Eu te disse. Se ficar longe, o que sente é muito pouco, é nada.

Não importa mais ninguém. Não mantenho vínculos. não posso ficar presa assim.



 Escrito por Borba, o cão às 23h50
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  Justificativas para hoje

Muita gente inventa mil motivos para nem chegar perto de seus blogs. Tenho um compromisso com os meus e estou aqui justificando, para mim mesma, que sou a maior leitora deles. Hoje eu tenho direito de não escrever, não é?

Passamos um dia de cão, igual vivem o casal de vira-latas sarnetos e patetas que atravessavam a Mem de Sá hoje. Foi um encontro com o espelho, perdidos na Rua do Resende, percorrendo de cabo a rabo umas quatro vezes aquela faixa, tentando encontrar a tal imobiliária, porque esquecemos o papel com endereço em casa. Os bichinhos derrotados perambulavam quase sem sentido, olhos vagos na circunstância de pés atropelados... Chegaram juntos, os carros devoradores na sua hora mais feroz, olham pra lados, meio chapados, ela consegue ir, ele fica pra trás. Detém-se a menina, com passos indecisos tenta voltar, mas ele chega, entre vários desvios de sorte. Então seguem nos seus pulos leves daqueles que não têm força mais para pensar. Dois fodidos sarnentos.

Então fica certo que, depois de ir e vir e ir de novo, de subir e descer a pé, Santa Teresa, nem um bondinho, de chegar e ter que voltar amanhã. De ter que redigir três cartas bestas - e controladas pelo Ronnie - , perder o dia, a noite... E ainda tenho que limpar a varanda. Carmem aguarda numa parte da cozinha, exilada por fronteira de baldes e bacias, já que chovia e o terraço está intragável.

Fica comprovado o meu direito de não-post.



 Escrito por Borba, o cão às 23h43
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  comentário no seo silveira

Nada é perfeito; não somos ricos. Arremesse-me pela janela se de fato te incomodar! Se não acredita, também tenho minhas necessidades de escrever, embora ali sim não haja qualquer esboço literário... palavras loucas. Mas o desejo, se for contar por necessidade individual, é forte, é tão grande quanto, maior, se tentar competir... A condição é que escolhi você, acima de tudo, e é um sacrifício isso, mas sempre te prefiro. Sendo a boa merda que sou, que você sempre espere a minha presença, que não seja nunca um empecilho; quando for, é que não sirvo mais pra você, de jeito nenhum. Uma coisa: quando estiver sozinho, ainda assim muitas idéias vão se perder, esperando a vez; não somos tão rápidos como o vulcão de nossos pensamentos. Veja eu, infeliz: não conheço a língua dos meus! não é uma maldição?

 Escrito por Borba, o cão às 00h35
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  Pro tio Luiz Carlos

Liguei agora há pouco e informei que suas indicações tinham pendências: a casa de Nelly não está ainda em seu nome e não tem carro. Neyzinho disse estar separado e que aí enrola...

Meu tio diz que vai ligar pro Ney e ver o que ele lhe diz. Eu, toda nervosa com esses favores pedidos a quem não costumo recorrer: com as quais sou meio brigada; parentes religiosos que me chamam desregrada... Despede-se ao telefone com um "deus a abençoe", como se quisesse provocar meu ateísmo, por pedir-lhe ajuda... Tenho grande receio disso tudo, mas não tenho que falar mal, pois até agora não me provocou realmente; sabe que isso só gera dissabores.

Enquanto ficar assim, é até agradável encontrá-lo e ter como único assunto a tratar, conhecido pelos dois, as ruas do Rio de Janeiro. Esta cidade me comove!



 Escrito por Borba, o cão às 18h39
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  Preciso de fiador

Depois de todas essas semanas, tive a idéia de pagar a Vera mais um mês de casa ferrada - não sei o que faço, é isso mesmo? pago pelo que não tenho? - e não pensar em mais nenhuma amolação, pelo menos por uma semana. O grande plano mirabolante de ver a casa da Aarão Reis me fez mudá-la e silenciar o telefone por dois dias para não sermos aborrecidos. Mulher da casa ontem não tinha chave. Hoje, só da maior: três quartos, quinhentos mangos. Não tem varanda nem janela grande, mas é alta e tem um aspecto limpo. A casa está reformada. não tem um lugar específico pra Carmem, mas acho que minha cadelinha se habitua bem às coisas. Onde seus detritos?, é o que quero saber. Outro problema: chegar à imobiliária, tentar negociar, ser aceita... Não tenho três meses de depósito. A casa é muito cara... Podiam cobrar, pelo menos, cinqüenta pratas a menos.

Volto a mesma questão: alguém quer ser meu fiador??? Preciso de fiador! Vou vender a alma e desnutrir pra pagar esse depósito indecente! Hoje, azeda novamente. Insuportável não saber. Tanto esforço, mais dias perdidos, pra não ter. Aarão Reis é rua ótima. Na boca pro bondinho Paula Matos; e por que não o Dois Irmãos... A casa tem vista do nosso ponto de olhadas, quando subimos essa rua. Chamei o Marfan pra dar cem paus e morar conosco. Meu bom velhinho, grandissíssimo amigo, é um enrolado.

Saber: vale a pena? Ronnie, diz: vale a pena? não fale por Carmem, que ela é boa garota, mas pelo dinheiro: vale? Superamos os gastos? E gostaremos? quanto a vizinhança, não pode ser pior que aqui. Nesta rua teríamos que brigar com a favela inteira. A Aarão Reis é tipicamente calma. Qualquer pessoa que habitar aquele terreno em grande estardalhaço será inimiga da paz... Teremos que reclamar. Falo da casa: tem como? Como?

Ligar pro meu tio, perguntar se ele teve novas idéias de fiador, para indicar... Tudo constrangedor...

Estou amaldiçoada e sem assunto:

quer ser meu fiador?



 Escrito por Borba, o cão às 18h15
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  Antídoto urbano

Não sei se a cabeça consegue pensar qualquer coisinha que não seja insanidade pra dizer aqui. Parece não dar tempo de escrever.

Ontem era a última esperança de me mudar daqui esse mês e nada deu certo. Porque a casa que desejava foi descartada. Foi com muita má vontade que desci a ladeira, resmungando e agindo mal com o Ronnie. Falando besteiras de morte que levaram a um triste post do seo silveira e, ao mesmo tempo, belo.
Quando apontamos na Rua Vista Alegre já imaginava que moraria ali. Mesmo que ainda tivéssemos uma ladeira por subir e que o local fosse meio suspeito pois o morro da coroa fica gigante ao fundo da rua, barracos apontados pra ela, a casa não parecia tão ruim, era mais barata e maior que esta de agora. Rua mais silenciosa também. Mas Ronnie apresentou alguns problemas que poderiam nos incomodar e meu azedume ficou mais forte. Não queria saber de ver lugares onde não vou ficar. Porque todos os meus dias estão se perdendo e não consigo dormir até resolver o problema. Não quero continuar iludida, se não for pegar a casa antes do Ronnie ir. E ele vai na terça! Então meu interesse era que saíssemos com a câmera pra um lugar mais emocionante e recuperássemos o tempo perdido!
Lá vamos nós procurar outro apartamento anunciado, na rua General Caldwell, perto da Central, e eu digo, não quero morar lá, longe de tudo, longe quando se trata de emergência, sou uma navalha enferrujada correndo a voz tímida e baixa do Ronnie, que não deseja nem um pouco me irritar mais. A gente desce a Padre Miguelinho e atravessa a passarela subterrânea em direção ao Cemitério do Catumbi, prossigo emburrada e cansada, sedenta... Contornamos o sambódromo e entramos na Frei Caneca. E é bem perto do Campo do Santana, naquele cálido tráfego, que nos deparamos com a General Caldwell, o número do prédio, um velho de reboco rachado, bem a nossa frente, tanto que não esperávamos tão perto, chegamos bem antes da hora. E minha alma se abrandou pensando que aquela rua era boa e que do sétimo andar, se o apartamento fosse bom, eu veria a cidade e o Campo do Santana. Fui comprar minha água e bebi até me esbaldar. Quando o rapaz chegou, subimos esperançosos. O apartamento precisa de reformas e não tem lugar pra Carmem. Mas contornei, em meus pensamentos, toda situação. A reforma descontaríamos no aluguel. Carmem faria as necessidades na pequena área de serviço e nós limparíamos a todo instante. Estaria livre pela casa. Só que a cozinha não tem espaço para tudo, nem pra fogão ou geladeira...

Seguiríamos para o escritório na Travessa do Ouvidor, da Imobiliária, mas me conformei em pagar o aluguel a Vera, sem ter que vê-la, vivendo como posso nessa espelunca, e ter tempo de encontrar uma boa casa. Então chamei o Ronnie pra desviar ao Campo do Santana, que eu teria meu gato naquele instante.

Alguma coisa mudou naquele parque. Está mais triste agora... Não pode ser uma impressão apenas que há menos gatos por ali. E que estão mais tristes e maltratados. Alguns agonizam pelos cantos, com pêlos caindo, tosses estranhas, catingosos. No pé das árvores, incham e molham-se... As cotias perderam o brilho dos pêlos duros; agora arrepiados, caindo... antes eram lambidos para trás, alinhados. Os lagos secam com cheiro de esgoto e muita sujeira. A comida parece escassa e os patos a cada dia mais se aproximam das grades da rua, onde uns gatos vagabundos e sarnentos recebem alguma ração de pessoas desconhecidas. Os patos comem dessa ração que não é própria para eles. E nem poderia dizer os responsáveis pelo parque que têm culpa aqueles que alimentam os gatos. Muitos, nesta cidade, simpatizam com gatos e cães, não querem vê-los agonizando e morrendo de fome. Se alimentassem os animais silvestres do parque não haveria esse deslocamento para a periferia do parque... Antes não era assim...
Vou atribuir às campanhas eleitorais e à insensibilidade do atual prefeito da cidade a desgraça dos bichos do Campo do Santana. Porque sempre soube que esse cara é fascista e que ele não só dá jeito no excesso de animais do parque público na cidade, como também no de pessoas que incomodam os moradores da zona sul que pagam impostos... Que todos somem: talvez estejam virando sabão... Os descendentes de judeus que moram por essas bandas deviam pensar nisso. Gente cheia da grana agora, que de outra vez sumiu como agora somem bichinhos e meninos de rua...

Eu quis um gatinho morrendo. Pensei em gastar um dinheiro que peguei emprestado para o aluguel na casa, levando-o ao veterinário. Mas não tinha caixa ou indicação de clínica. O plano era deixá-lo curado e bonito, levá-lo pra casa e tratar com a ração que já comprei no prezunic, pro meu futuro gato. Ronnie discordou e disse pra eu pensar bem. Não tive menor apoio de sua parte e assim abandonei, como de outra vez, impotente, outro "gato sem olho", um representante de minha solidão...

Seguimos pro CCBB, onde fomos ao banheiro e bebemos água. Depois lanchei aqueles salgados caros da Carioca, mas gostosos, com um copão de suco de maracujá, extraordinariamente. Sentamos no banco da Cinelândia até dar mais ou menos meu horário na Villa Lobos. Fomos ao banheiro no Odeon, Ronnie seguiu pra estação de bondinho e eu pro Largo da Carioca. Parei na banca de promoções e comprei três cds de um real pra dar de presente a Tia Estela: Missa Solene e Sinfonia Pastoral, de Beethoven, e Jazz Masters, Duke Ellington. No momento, até escutamos a missa incrível do beethoveníssimo homem iluminado!

Minha professora de leitura e escrita musical é a típica professora escolar... gordinha, cheia de pastas e óculos com correntinha que pendura. Antes de entrar na sala, se detém a porta para falar com alguém. E foi a música que me limpou a mente por alguns instantes... Ela espanta nossos males...

Peguei o Paula Matos e subi a Aarão Reis para chegar em casa. Novo plano mirabolante: raciocinar coisas sobre o anúncio de aluguel de casas que o Ronnie tinha desprezado já há tempo; deduzir que a casa era boa e bater palma. Ninguém atendeu. Cheguei animada em casa e convenci ao Ronnie da nossa última chance, antes de sua partida. Hoje, estivemos lá, pra olhar. Mas a moça não tinha ainda a chave da casa. Amanhã, voltaremos. E sigo nervosa com meus pensamentos de mudar. Já tinha pedido pra ligar pra Vera e dizer que hoje iríamos lá. Como não estava em casa, deixou recado. Hoje, desligamos a campainha do telefone, pra que ela não nos incomodasse. As esperanças prolongaram nosso prazo. E nada mais justo que um alarme falso àquela que tanto prometeu sem nada cumprir.

Aproveitando a saída que fizemos pra ver se o plano estava correto, subimos a Aarão Reis para Almirante Alexandrino. Seguimos a pé até próximo ao Corcovado. Não eram planos do Ronnie que se alongasse muito a caminhada e ele ficou mal-humorado. Só voltamos porque ele quis. Voltamos ainda de ônibus. Não quis o biscoito-porcaria que comprei para segurar a fome e estava faminto. Saímos de casa com apenas um copo de leite.

Apesar de tudo, o Rio é maravilhoso e é de Santa Teresa que podemos rodear com a visão quase toda cidade...



 Escrito por Borba, o cão às 23h00
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  Como estamos

Todas as coisas tem dado errado. Ter conseguido dinheiro do depósito não conta muito. E agora devo me conformar de pagar o aluguel na segunda a dona desta casa, me conformar com banheiro sem luz durante um mês, apenas para ter mais tempo...

Pensei em experimentar o seguro fiança para a tão almejada casa... Nas diversas tentativas de propor, hoje o próprio advogado me atendeu e disse que a casa, na verdade, já estava alugada. Não dá pra acreditar muito nisso, né? Depois de tudo que passei, já está na hora de acreditar que realmente a mim é que ele não quer lá.

Pensar agora em outras casas... Andamos essas ruas a semana inteira. Estamos de saída para mais uma jornada. Agora que já paguei o mico de enviar um podre e-mail ao meu professor de Panorama Musical, pedindo pra ser meu fiador. Ah... foi um momento de fraqueza, desgaste emocional porque não é fácil viver assim: Há muito não me aproximo das coisas nesta casa. A pia da cozinha está da mesma forma de quando fui para Campos pegar o dinheiro. Há uma semana não limpo a varanda onde Carmem dorme e nem o terraço - este lotado de cocô. Não fico ao lado dela para que coma tudo, então ela larga e come menos. Não lavo minhas ceroulas, que empilham no balde onde a água de molho deve estar podre. Minhas meias fedem. As olheiras crescem roxas. Não raciocino.

No momento, por exemplo, Ronnie já deve ter comido toda a sua parte da lasanha, me espera pra sair e eu aqui... Deixo minha comida esfriar e o refrigerante perder o gás...

A vida não está boa. E ainda tenho que mandar um e-mail ao professor pedindo desculpas, que eu estava chapada de desilusões...



 Escrito por Borba, o cão às 10h52
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  Diário de bordo (rabiscado no ônibus)

Tudo é presságio de que nada dará certo!

Ronnie não conseguiu o gatinho...

Os carros, da ponte, parecem de brinquedo.

Pensei que não fosse conseguir escrever dentro do ônibus.

A rodoviária hoje estava cheia de gente.

Agora sei que estou na ponte. Ao meu lado, depois do concreto, água preta da noite.
Estou arrependida de estar indo. Quero que o Ronnie desça e procure meu gato.

No escuro, vejo o avião pousar. [Não quero ir pra lá. Sozinha, ainda.]

As luzes do ônibus não apagaram. Ainda bem.

Estou lendo o livro. Episódio em que Goethe vai jantar no Castelo da princesinha de Nápoles. Queria ler em voz alta pro Ronnie.

Estou a caminho do indesejo. Ninguém me quer lá, muito menos eu.

O vento bate no ônibus e entra onde estou. Sacode o cabelo e o espírito. Quando chegar, vão se assustar.

Baía de Guanabara é mais cheirosa que minha cozinha. Vou morar aqui.

Ainda penso no gato. Ronnie tinha que estar lá fora, ao pé do morro, buscando o bichano.

Fiquei alegre por alguns minutos pensando que teria um gatinho lá em casa. Como sou desconfiada, penso que o Ronnie me mentiu. Parecia não querer o gato.
Em algum lugar deve estar. Procura bem no morro! Pelo mato, no barranco, oficina, no esgoto. Por ali sempre tem algum bicho engraçado. Outro dia era uma galinha, parecia estuprada. Tão imunda, moscas a cercavam. Caminhou longo trecho para ave nessas condições. De repente, lá na frente, a galinha recostava cabeça em muro, a fim de tomar fôlego, descansar, fechando de leve os olhinhos.

Hoje, ao descermos, foi o gato. Encardido, magricelo, Ronnie achou feio. Disse que o acolhesse na volta do ponto. Quero o gato!

Estou a caminho da cidade que torna as pessoas infelizes!

É difícil, mas quando consigo cochilar no ônibus... Cabeça vai tombando, involuntariamente a boca abre. Sonhava com algum conforto, nenhum problema a enfrentar... Que cochilava na cama enquanto Ronnie estava ao computador. Súbito desperto, estou no ônibus balouçante, boca arreganhada. Impostura solitária em meio a estranhos. Será que falta muito pra chegar?

Esquecendo os problemas, por alguns instantes, espécie de tranqüilidade me toma, em viagem. Sem lembrar da embolação de pessoas que me aguarda, da incompatibilidade com o meio a que me dirijo, certa liberdade paira sobre mim. Tudo a que devo parece guardado em cofre. Sinto-me importante fazendo anotações entre estranhos. Afetada pelo livre que me acompanha certamente. Por Goethe e seus rabiscos sobre italiano.

Cheiro de cana queimada, sutil, pela fresta da janela. Ao despertar de um breve cochilo, pensei já estar em Ururaí. Mas acho que ainda falta. Voltamos a passar por estrada escura de matos e pequenos montes por onde corta, aspecto de carne sendo partida para bife. De qualquer forma, parece se aproximar da planície.

O ônibus quase pára agora. Algum acidente na estrada envolvendo caminhões. Grande carregamento de caixas médias, lacradas, se espalha pelo chão, acostamento adentrando mato. Carros de polícia rodoviária com luzes piscando, escuros de listras amarelas. Outros carros envolvidos na situação, mas nenhum estrago grande, pelo menos que eu perceba. Alguns murmúrios no ônibus pela grande quantidade de caixas que sugere despesa grossa; e mobilização na faixa de cinqüenta metros - não sou boa com medidas - de seis a oito carros.

Pressinto que estamos bem próximos da planície amaldiçoada!

Voltando às boas sensações, quando me sinto anônima tenho vontade de anotar qualquer coisa. Viajar dá impressão de termos dinheiro de sobra guardado no bolso - toda nossa riqueza. Não é verdade. Corro enorme risco de faltar - e só venho porque preciso de um lugar pra morar.

Queria que todas minhas coisas coubessem na mochila. Que um único livro publicasse leitura de toda a vida. E na única caderneta, sempre folhas em branco dispostas a tudo se rabiscar. Acho que essa é minha felicidade clandestina.



 Escrito por Borba, o cão às 23h36
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  Apelo

Fico esperando alguma coisa, braços cruzados. Que o Ronnie saia do computador e olhe pra mim. Tenha idéias e as profira. Acredite tanto mais que eu, de qualquer forma saiba - que tudo vai dar certo.

Impaciente, quando cessará? Até eu lembrar existe caneta e caderno - desabafo.

Hoje, mais louca. Determinada à morte, se não for conseguir o que necessito e quero.

Ameaça de ser largada sozinha, na quarta, por não sei quanto tempo. Lançada ao pútrido buraco de esgoto - trancada. Pagar aluguel por essa espécie de "abrigo". Não, não posso. A semana vai acabar. Onde as vias de fuga?

Se eles não existissem - Ronnie e Carmem - , eu queimava tudo. Ah, vão embora... Vai e a carregue! Que saio errante pelo mundo, livre, sem nada que me segure. Gente ou bens - livros, computador, papéis assinados, nada...

Todos recusam Áurea, sem conhecer. Não existo. Números cadastrados algum dia já não servem mais.

O peito agita e a cabeça não descança. Suspiro.

Pense em como conseguir dinheiro certo, segunda... Ronnie tentará o banco. Eu envio e-mail ao banerj. Não dá pra contar com incertezas! Quero que alguém garanta o crédito.

Quanto ao que escrevo, se me repito, não ligo. Meu único pensamento é dinheiro. Para conseguir a casa. Cercar aquele que me deve moradia.

Se não tiver onde morar, se ele me abandona, que vá e não retorne! Leve Carmem, leve tudo!

Ou tenho um plano pra ver que não é fácil: eu o substituo indo pra Campos e ele se vira por aqui, sozinho... Se não é agora que preciso mais dele, ah, deve me ser muito dispensável. Não quero prisões. Me livre de todos! Estar morta é a melhor opção, se não pode viver.

Sinto absurdo. Como é fácil escrever, inventar, diante disso tudo? Eu amo que escreva. Mas sinto injusto. Sinto sozinha.

Pudesse assumir que graça para mim já não há mais e que piedade de mim é oferta de morte, sentiria a presença. Sentiria que me ama. Um dogma que faz sofrer: viva, com sarna, mas viva! gordo vegetal, viva! gaste todo o ar, faça nada! Parece que ouço... Preciso do exemplo: arranco seus dedos e idéias; não escreve mais. vive assim? quer que eu viva assim?

[há granadas explodindo lá fora; peça que eu fique mais dois, cinco, sete dias; sairei para tomar ar. Explodirei!]

Carmem arranha a porta como nunca. Mais agitada ainda.

Ou me tiram daqui ou os blogs morrem sem dono!



 Escrito por Borba, o cão às 23h51
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